domingo, 26 de julho de 2015

Dos micromputadores, sem internet, aos tablets e smartfones: processo e tecnologia.


Em 1995, a internet ensaiava os primeiros passos. Naquele tempo, estar "no mundo das nuvens" ainda era simplesmente estar no mundo das nuvens, fora da casinha, planando, desligado...

Fazia, já, alguns anos que operadores interessados haviam evoluído das máquinas de escrever para microcomputadores. Naquela quase pré-história, editores de texto horríveis permitiam escrever tudo, mas sem acento e cedilhas. O h  passou a habitar os textos como nunca, na construção dos estah, ateh e serah. O espanhois adoraram aquele português sem "ãos" que eles finalmente conseguiam pronunciar direito. Afinal, agora eles conseguiam dizer o ditongo como era escrito: ao.

A escritura se rendera à pronúncia sem o ã  trapaceiro, só pronunciável pelos nativos. O ç  andou por um bom tempo desanimado e esquecido. Todos se contentavam com apenas o c.
Até que os editores nacionais devolveram a alegria variada da língua, com seus acentos, tremas etc. E o ç voltou a sorrir.
A borracha e o papel carbono entraram em desuso. Escrever, apagar, corrigir... tudo sem borracha.  Um luxo!

Copiar/colar, deletar, gravar, salvar   iniciaram uma transformação de palavreado que cada vez impressionava mais.  Datilografar ficou para trás... chegou o digitar. Cópia já não é mais cópia, tem a mesma cara do original. A mais exata das perícias não consegue dizer o que foi que existiu primeiro: o original e a cópia ganharam um caráter de fungibilidade que os juristas não entendiam muito bem.

A internet acabou de fazer a zoeira.
Ter uma petição no escritório, em Porto Alegre, e a mesma peça no fórum, em Brasília, no mesmo instante, era um milagre da tecnologia. Agora está banalizado, normal.
Espaço e tempo encolheram para tornar o "presente" ubíquo. A simultaneidade,  tão cara aos teóricos do tempo, ganhou uma realidade que nem os fisicos imaginavam.  Estar e estar, eis a questão! Em dois ou mais lugares ao mesmo tempo!

As nuvens, na sua fugacidade, ganharam expressão de solidez. Estar seguro, agora, não é estar no chão, no solo sensível e firme  sob os pés, mas sim estar no "mundo das nuvens".

Assinatura? Nada disso: token, pin, hash, criptografia, chave privada, chave pública... login, senha.

Folha dos autos?  Onde?  Agora é identificador... ya64b89z5.

- Excelência, no identificador x8y95kv...  repito, excelência, x-8-y... é...  x...8...y isso! 9-5-k-u...
- Não é k-v? - pergunta o juiz.
- É como eu ditei, excelência, vou repetir...
-Só o final, doutor - pede o juiz.
-ah.,, é k-v excelência... perdão... eu disse k-u... imagina. Desculpe...
-Isso está mais para o início ou para o fim dos autos? - Pergunta o juiz.
-É aí no meinho, excelência, nem muito pro começo, nem muito pro fim... - responde o advogado. E continua:
-Roda a bolinha do mouse, excelência e dá um click no butaozinho vermelho... na direita... em cima!
-Que butaozinho? Ah... no ícone? - Exclama interrogativamente o juiz.
-Abriu, excelência? Aí aí...  Está vendo? Este PDF não está assinado...  é este o problema!

Esta seção quer registrar momentos dessa trajetória, na qual a rainha máquina de escrever perdeu o trono para os atuais notes, smartfones e tablets. Uma trajetória onde a obsolescência é rapida como um raio e na qual a criatividade e a coragem de alguns quebraram barreiras e tornaram o Direito um espaço também de tecnologia.
Um tempo no qual não estar no mundo das nuvens é inseguro e fora de moda!

Pelo menu à esquerda é possível acessar, já, alguns conteúdos. Como espaço de história, esperamos enriquecê-lo aos poucos, contando com a contribuição de muitos amigos.